sábado, 31 de janeiro de 2015

Alli ninguém se reúne; apenas se passa y meia hora antes dos espectáculos, a espreitar as caras caiadas e carminadas das hespanholas, que vão para as plateias á caça do homem. Por volta do meio dia, vão para alli os hospedes do Alliance e do Borges > depois de almoço, fumar, palitando os dentes. Mas o Marrare do Poli mento fechou; o Seixas mudou de negocio e de dono; o Magalhães desappareceu ha dias. E esta debandada acabou de exauctorar o Chiado, entregando-o sem protesto ás novas camadas. O Chiado é hoje apenas uma rua, elle que fora um sólio. Eu vi, ainda, os seus antigos frequentadores subirem-mo. Iam a pé, grisalhos, rheumaticos, nostálgicos; e eram amanuenses a trezentos mil réis por anno, para não morrerem como os condes de C. e da L., nem viverem como o visconde de E. e a viscondessa da T. da M. Este livro é a minha these de concurso. Que eu não quero dizer que descobri o Chiado! Também os grandes africanistas não descobriram a Africa: limitaram-se a ligar o estudo das suas grandes civilizações antigas, atravez de uma longa solução na continuidade dos tempos, com o estudo da sua situação actual. E eu fiz isso mesmo, ou pouco mais ou menos, com o Chiado lisboeta. O Chiado, verdadeiramente, ha uns poucos de annos que não existe senão como uma velha reputação immerecida, aguentando-se na credulidade dos provincianos como se aguentam na credulidade lisboeta as queijadas da Sapa, por uma espécie de impulso adquirido na reclame^ e por uma espécie de condescendência na saudade. Hoje, o Chiado é em toda a parte de Lisboa, menos no Chiado: o que elle tinha de riqueza foi para a Avenida; o que elle tinha de aristocracia foi para o cemitério; o que elle tinha de arte e de espirito foi para certas mesas de cafés. Eu fui, pois, o viajante da sua ladeira já desertada pela velha roda, e o chronista da sua decadência. Essas notas que vão ler-se, ás vezes confusas como apontamentos telegraphicos de um simples impressionista e quasi sempre salteadas, incongruentes, são o livro, único livro que convinha, como celebração no altar da historia, á insignifi- cante rampa que um capricho da moda tor- nou em tablado de todas as elegâncias lis- boetas, e d'onde tantas mulheres, tantos no- mes, tantas fortuna- rolaram para prostíbu- los, para galés, para hospitaes. Ahi vai lembrado, a espaços, o velho Chiado flammante, rico, encantador. A es- paços, ahi reapparece na chronica moderna o moderno Chiado, sem toilette é sem pr — tigio, onde a piedade cora de ver os anti- gos dandies estenderem a mão aos moder- nos marialvas . . . pedindo esmola. Ainda o outro dia morreu o Eusébio Gue- des, que tantas vezes subiu aquella ladeira em phaeton, a duas parelhas de mecklí burguezes. radiante para as mulheres, que lhe sorriam . . . Chegara-lhe a sua vez de a descer, também, até á valia commum, por tal signal ... É viva ainda, e rica, e feliz, creio eu, a senhora por amor de quem elle arrojou á rua, n um desespero romântico de amante desdenhado, em dois ou três annos de loucuras, uns tresentos ou quatrocentos contos. Pois é verdade: morreu, o outro dia, no hospital, obscuramente, depois de XIV VIAGENS NO CHIADO andar quinze ou vinte annos a coçar pelas esquinas dos palácios, onde outrora jantara, rico e amado, os seus andrajos e a sua bai- xeza. E por essa ladeira onde o seu phae- ton subia, triumphante, todos os dias sobem agora os carros Rippert, a pataco por cabe- ça, para a Patriarchal. E o reinado da pelin- trice. As patas das mulas, esbaforidas, offe- gantes, tomam posse, com ignominia, do terreno que fora como que um apanágio aristocrático dos grandes e dos ricos. Aquil- lo . . . é um paiz findo. Longe a longe, ainda a litteratura do fo- lhetim quer fazer crer que o Chiado existe, e localiza-o na Casa Havaneza. A minha consciência impõe-me que previna o leitor contra essa crença errada, rosta a correr por uns noticiaristas, que appareceram no asphalto á ultima hora das elegâncias ex- tinctas, e que, para se darem ares perante a província embasbacada, fumam pomposa- mente as hortaliças conhecidas por charutos de vinte e cinco. A Casa Havaneza, crea- ção recente do capitalismo ávido, á coca das vaidades dos adventícios, é pelo contra- rio a nota primeira do advento da democra- cia, nos domínios onde reinara até ahi o luxosahem da jaula da humanidade ainda com os olhos encandeados de sangue das fauces que se lhes escancararam deante, fa- mintas e ferozes. E o próprio beijo que te dou — deante de tanta gente — dou-t'o cons- trangido, quasi cerimonioso, n'um vago me- do de quando o Chiado, entre estupefacto e escandalizado, me via subir a sua ladeira c<»m o meu filho ao collo, ás vezes dormi- tando com a cabeça sobre o meu hombro. Mas — seja o que Deus quizer! — o teu nome aqui fica, já agora, e já agora aqui fica este livro sob a sua invocação, com a religiosa piedade que punha outrora as egrejas — em tempos melhores de fé — sob o patrocí- nio dos orados favoritos. Possa o destino es folhar, uma a uma, estas paginas, como o tempo derruba as pedras de um templo, dei- xando só incólume aquella em que o teu querido nome se inscreve, semelhante a uma pedra de ara, inviolável e inviolada.

' d' esse velho mundo decahido que este 
livro faz a historia anecdotica e a 
geographia pittoresca, ás vezes enternecidas de uma vaga saudade. Eu fiz a travessia do Chiado, 
quando elle já era morto: mas amei-o, por 
amor de alguns que o encheram com o rumor 
alegre das suas rapaziadas n'um tempo 

em que eram cabellos negros as suas brancas 
de hoje. Foi só nos últimos tempos, por 

assim dizer ao desmanchar da feira, quando 
paira um mal-estar indefinido ao vacillar das 
coisas estabelecidas, que o Chiado tomou a   sua feição má de desordeiro, pela qual 
tremeram as burguezias pacatas; foi na rápida crise de febre que desorganizou a alta roda lisboeta, combalida nos seus esteios pela 

derrocada das grandes casas, que elle 

deshonrou as suas tradições, deixando-se 

invadir por uma juventude sem nome, 

sem educação e sem dinheiro, que apodreceu de calotes á primeira meia libra gasta n'uma 

espera de toiros. 


Seja este livro, meio doido, 
o padrão erguido na soledade de uma região 

extinta á 

memoria de uma civilização esvaída.